
Biomedicina do século 21 exige profissionais inovadores, afirma Marcelo Morales
A transformação da ciência básica em soluções capazes de mudar a vida dos pacientes foi o eixo central da palestra magna de abertura do Biomedicina in Santos, realizada nesta quinta-feira (4), no Santos Convention Center.
Convidado para abrir a programação do evento, o médico e pesquisador Marcelo Morales abordou o tema “Biomedicina no Século 21: da Ciência de Base às Terapias Avançadas”, destacando o papel estratégico dos biomédicos na construção do futuro da saúde.
Doutor em Ciências Biológicas – Biofísica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com pós-doutorado pela Johns Hopkins University, nos Estados Unidos, Morales compartilhou experiências de sua trajetória acadêmica e apresentou pesquisas que vêm contribuindo para o avanço de terapias inovadoras.
Perfil
Logo no início da apresentação, o pesquisador definiu o perfil do profissional biomédico contemporâneo, cuja atuação ultrapassa os limites dos laboratórios e alcança a assistência à saúde, a inovação tecnológica e a formulação de políticas públicas.
“O biomédico do século XXI não é apenas alguém que executa. Ele transforma perguntas em conhecimento, transforma conhecimento em inovação”, afirmou.
Ao relembrar sua experiência como pesquisador na Johns Hopkins University, uma das instituições mais prestigiadas do mundo, ele destacou a importância da iniciação científica na formação profissional. Segundo ele, o contato com a pesquisa desenvolve o pensamento crítico e amplia a capacidade de inovação dos futuros biomédicos.
O cientista relatou episódios marcantes de sua carreira, incluindo o trabalho que contribuiu para a identificação de um gene relacionado à fibrose cística, resultado alcançado após anos de dedicação em laboratório. “Quando disserem para você ‘não é possível’, é possível sim. Você é capaz. Insista, persista”, aconselhou aos estudantes presentes.
Terapias avançadas e novas fronteiras da saúde
Um dos momentos mais interessantes da palestra foi a apresentação dos estudos conduzidos pelo grupo de pesquisa coordenado pelo dr. Morales envolvendo células-tronco e vesículas extracelulares para o tratamento da silicose, doença pulmonar crônica causada pela inalação de partículas minerais, e que ainda não possui cura definitiva, nem tratamento eficaz.
O pesquisador explicou que sua equipe realizou o primeiro procedimento no mundo de administração de células-tronco por via respiratória em seres humanos com silicose, abrindo novas perspectivas para a medicina regenerativa. Segundo ele, a terapia se mostrou segura e os resultados clínicos acompanharam os achados positivos verificados em modelos experimentais com animais.
“A Biomedicina é a ponte que transforma curiosidade em conhecimento, conhecimento em inovação e inovação em cuidado”, ressaltou.
Ciência, ética e políticas públicas
Ao longo da apresentação, Morales também abordou momentos decisivos da ciência brasileira. Entre eles, sua participação nas discussões que garantiram a legalidade das pesquisas com células-tronco embrionárias no país e a implementação da Lei Arouca (Lei Federal 11.794/2008), que regulamentou o uso ético de animais em pesquisa.
O palestrante ainda relembrou sua atuação como gestor no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e no Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, além dos esforços para fortalecer a produção científica nacional.
Pandemia
Durante a pandemia de Covid-19, destacou a contribuição brasileira para o desenvolvimento da primeira vacina integralmente produzida no País, coordenada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Atualmente atuando como assessor do senador Marcos Pontes, dr. Morales revelou que acompanha iniciativas voltadas à valorização profissional, entre elas projetos relacionados ao piso salarial dos biomédicos e à atualização da legislação que regulamenta a profissão.
Ele lembrou que as propostas estão no Congresso Nacional, e defendeu que os biomédicos e as associações de classe façam pressão sobre os parlamentares.
Convite à inquietação científica
Em tom inspirador, o pesquisador encerrou a palestra incentivando estudantes e jovens profissionais a se aproximarem dos laboratórios de pesquisa, e a enxergarem a ciência como ferramenta de transformação social.
Segundo ele, o Brasil reúne infraestrutura, conhecimento técnico e profissionais qualificados para assumir posição de destaque no desenvolvimento das terapias avançadas que marcarão as próximas décadas.
“A ciência tem seu passo. Ela precisa ser feita com qualidade para que a gente possa realmente colocar a população em segurança”, frisou.
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