
MINHA
MISSÃO AFRICANA
Ser voluntário na África é uma
lição de vida que, creio, todos nós profissionais da
saúde, deveríamos aprender e constitui um campo de oportunidades
que se abre para o biomédico como especialista na área diagnóstica
ou sanitária.
Bernardo Soares
lá
colegas:
Estou aqui em Moçambique, em missão pelos Médicos
Sem Fronteiras, organização humanitária internacional
de saúde detentora do Prêmio Nobel de 1999. Conforme reportagem
anterior da Revista do Biomédico (edição 65, maio/junho
de 2005), depois de rigorosa seleção internacional, fui aprovado
e enviado a Moçambique, levando um curto treinamento prático
em técnicas gerais de atuação e de segurança
no campo.
É um país belíssimo, mas triste, pois é devastado
por todas as doenças infecto-parasitárias que se pode imaginar
e ainda mais agravado pela Aids, aqui chamada de Sida. Minha missão
aqui se estende por seis meses (já quase no fim - até junho)
e compreende o apoio laboratorial às unidades de saúde de
uma das províncias do país mais afetadas pela Sida.
A história é longa e, assim que tiver oportunidade, fornecerei
detalhes mais esclarecedores dessa epidemia na África e como várias
organizações humanitárias, incluindo os MSF, a ONU,
a OMS e tantas outras vêm lidando com essa questão sob várias
frentes: terapêutica, aconselhamento social, apoio psicológico,
diagnóstico e suporte técnico em pessoal especializado e equipamentos
que não estão disponíveis nestes países.
O principal obstáculo nesta região é justamente a falta
de pessoal técnico qualificado, tanto na área clínica
como na laboratorial. Na saúde pública africana faltam médicos
especialistas em infectologia e medicina tropical, exatamente as especialidades
mais necessárias. Moçambique era colônia portuguesa
até meados da década de 70 quando se tornou independente após
terrível guerra civil, mas somente em 1992 os portugueses deixaram
definitivamente o país e levaram literalmente tudo.
Neste pouco tempo, os moçambicanos não tiveram oportunidade
de se re-erguer, por falta absoluta de recursos humanos e materiais. A patologia
clínica, por exemplo, é uma atividade técnica
exercida por pessoal de 2º grau e que por isso perde muito em qualidade,
apesar de ser bem feita são profissionais que conhecem as
técnicas, mas não pensam no porquê nem na importância
do que estão fazendo.
Minha atividade maior aqui é justamente orientar esses colegas técnicos
e tentar fazê-los entender a relevância clínica dos exames
laboratoriais e sua confrontação com os dados clínicos,
mas é uma tarefa difícil, pois falta-lhes a teoria e o entendimento
de uma disciplina de nível superior, além de existir uma atitude
meio desleixada dos profissionais e do próprio povo, que faz com
que as coisas andem devagar demais e transforma o trabalho de ajuda em um
desafio.
Outro grande problema é fazer chegar os medicamentos ou reagentes
em tempo hábil e sem quebras de fornecimento. É, portanto,
em termos gerais, um continente que subsiste praticamente à custa
do voluntariado, que precisa de ajuda quer na formação dos
quadros locais quer na assistência direta.
Considero ser uma experiência muito especial conhecer as realidades
na assistência médica, na educação e na política
de outros países; ajudar, estar alerta para o que há fora
de nosso ambiente; ser voluntário na África é uma lição
de vida que, creio, todos nós, profissionais da saúde, deveríamos
aprender e constitui um campo de oportunidades que se abre para o biomédico
como especialista na área diagnóstica ou sanitária.
É uma chance de prestar ajuda a povos carentes e, ao mesmo tempo,
tornar-se mais humano.
Bernardo Elias Correa Soares
Formado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 26 anos de atividades
na Biomedicina, principalmente em Microbiologia, é pesquisador da
Fundação Oswaldo Cruz. Com doutorado em saúde pública,
trabalha no Núcleo
de Biossegurança da Fiocruz. Com longa atuação em doenças
infecciosas,
integra o quadro de especialistas da organização internacional
Médicos Sem Fronteira,
como cientista de laboratório. Correspondência: belsoares@globo.com