
BIOMÉDICA IMPULSIONA TRIAGEM NEONATAL NO BRASIL
TANIA MARINI DE CARVALHO TRABALHA NO MINISTÉRIO DA SAÚDE PARA AMPLIAR O PROGRAMA NACIONAL DE TRIAGEM NEONATAL

ssessora
técnica do Ministério da Saúde e presidente da Sociedade
Brasileira de Triagem Neonatal, a biomédica Tania Marini de Carvalho
é uma grande batalhadora da triagem neonatal no Brasil. Ela participou
ativamente da criação e implementação do Programa
Nacional de Triagem Neonatal, que hoje atende 80% dos nascidos vivos no
País.
Atendendo a um artigo do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA),
que prevê o diagnóstico de erros inatos do metabolismo, o então
ministro da Saúde, José Serra, convidou Tania para coordenar
o Comitê Técnico Assessor em Triagem Neonatal no ano de 2000.
Na época, o governo apenas pagava o chamado teste do pezinho, utilizado
para detectar fenilcetonúria e hipotireoidismo congênito, realizado
por algumas Apaes (Associação de Pais e Amigos de Excepcionais)
e alguns laboratórios privados do País.
Explicamos ao ministro que, melhor do que apenas pagar os exames,
era necessário acompanhar o tratamento dos pacientes e pagar os remédios
necessários, lembra a biomédica. Graças ao trabalho
do comitê, o ministro assinou em 6 de junho de 2001 a portaria criando
o Programa Nacional de Triagem Neonatal (PNTN). O foco deixou de ser
apenas a realização do teste do pezinho e passou a ser o atendimento
integral do paciente, feito por um serviço de referência,
conta.
SERVIÇO MULTIDISCIPLINAR Hoje, qualquer posto de saúde
colhe o material para o teste (são mais de 12.300 postos espalhados
pelo País) e o envia para um serviço de referência,
que faz o exame. Há 34 serviços no Brasil: sete em São
Paulo, dois no Rio de Janeiro e um em cada um dos outros 25 Estados. Se
o exame der um resultado alterado, é feita a busca ativa: procura-se
a criança, em qualquer lugar em que esteja, para se realizar o exame
confirmatório. Se a doença for confirmada, imediatamente é
marcada a consulta para início do tratamento. Os serviços
são multidisciplinares e a família é acompanhada por
profissionais de serviço social e psicologia, explica Tania,
que já visitou quase todos as unidades de serviços para verificar
se elas são qualificadas. Só não conheço
três Estados do Brasil, contabiliza.
A fenilcetonúria e o hipotireoidismo congênito são as
duas doenças incluídas na fase 1 do PNTN, que já atinge
o País inteiro. A fase 2 inclui a anemia falciforme e é contemplada
em 13 Estados (todos os das Regiões Sul e Sudeste mais Mato Grosso
do Sul, Goiás, Bahia, Pernambuco, Maranhão e Rondônia),
e a fase 3 engloba a fibrose cística, atendida em três Estados
(Paraná, Santa Catarina e Minas Gerais).
TÂNIA JÁ SOMA 20 ANOS DE DEDICAÇÃO AO PROBLEMA
ania Marini de Carvalho
formou-se em Biomedicina em uma das primeiras turmas da Escola Paulista
de Medicina, em 1974, com habilitação em Imunologia. Em seguida,
começou a pós-graduação, mas não a concluiu
e paralisou as atividades profissionais durante 12 anos, em que se tornou
apenas dona-de-casa. Só interrompeu o exílio em 1982, quando,
devido à mudança de legislação, houve um grande
curso na EPM para que os biomédicos obtivessem a habilitação
em Análises Clínicas.
EMPENHO Disposta a ter uma atividade profissional, a biomédica
começou a trabalhar na Associação dos Pais e Amigos
dos Excepcionais (Apae) em 1986, inicialmente como voluntária, depois
como funcionária e posteriormente como chefe do Serviço de
Triagem Neonatal. Trabalhou com o médico Benjamin Schmidt, que havia
introduzido o teste do pezinho na Apae em 1976. Ao contrário
do que costuma acontecer, o Brasil caminhou junto com os países desenvolvidos
no desenvolvimento da triagem neonatal, afirma.
Enquanto estava na Apae, Tania fez especialização em Biologia
Celular e Molecular no Instituto da Cabeça, órgão suplementar
da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Também fez
curso de capacitação em Terapia Nutricional para pacientes
com fenilcetonúria.
Desde 1993, a biomédica é membro da Sociedade Internacional
de Triagem Neonatal (ISNS, na sigla em inglês) e foi fundadora da
Sociedade Latino-Americana de Erros Inatos do Metabolismo e Pesquisa Neonatal
(SLAEIMyPN, na sigla em espanhol), em 1996. E em 1999 fundou também
a Sociedade Brasileira de Triagem Neonatal (SBTN), que presidiu no período
de 2004 a 2006.
Em 2000 deixou a Apae para atender a um convite do Ministério da
Saúde para implementar a triagem neonatal no País. Como assessora
técnica do ministério e morando em São Paulo, Tania
viaja toda semana para Brasília ou algum Estado para visitar os serviços
de atendimento. Já foi a vários países, como Colômbia,
Costa Rica e Finlândia, para falar sobre o programa brasileiro. E
sempre muito animada com a profissão. O biomédico tem
uma formação muito legal para atuar nessa área, porque
é sólida e ampla.
"Com o Programa Nacional
de Triagem Neonatal, o foco deixou de ser apenas a realização
do teste do pezinho e passou a ser o atendimento integral do paciente, feito
por um serviços de referência."
Tânia Marini de Carvalho
SE NÃO TRATADAS A TEMPO, DOENÇAS PODEM CAUSAR DEFICIÊNCIA MENTAL
s doenças
contempladas no Programa Nacional de Triagem Neonatal são assintomáticas
e, se não tratadas a tempo, podem ocasionar seqüelas graves
e irreversíveis no desenvolvimento da criança. A fenilcetonúria
é genética e quem a possui não consegue processar a
fenilalanina (um aminoácido) e acaba acumulando um metabólito
que ocasiona lesão no cérebro. A fenilalanina é encontrada,
por exemplo, no aspartame e por isso os rótulos dos produtos que
utilizam esse adoçante trazem um alerta para os fenilcetonúricos.
Uma criança com essa doença tem de seguir uma dieta difícil
de fazer, restrita de proteína. Ela usa um produto importado
que tem aminoácidos essenciais, menos a fenilalanina, e que é
fornecido pelo governo, explica Tania. Se fizer a dieta direito,
a criança tem um desenvolvimento normal. A doença atinge
uma em cada 15/20 mil nascidas vivas. Como nascem três milhões
de crianças anualmente no Brasil, pode-se concluir que a doença
não é tão rara como parece.
SEQÜELAS O hipotireoidismo atinge uma em cada 3.500
crianças. O paciente não produz o hormônio T4, que deve
ser reposto em doses personalizadas, com acompanhamento de endocrinologista.
Se não for tratada logo no primeiro mês de vida, a criança
já começará a sofrer seqüelas, porque o T4 é
importante para o desenvolvimento físico e mental.
A anemia falciforme é a fabricação de uma hemoglobina
anormal: em vez de ser arredondada, ela tem a forma de uma foice. A doença
tem origem na África e é encontrada em Estados com maior número
de negros, como a Bahia. Mas, devido à miscigenação,
ela não é uma doença de uma raça específica,
alerta Tania. O paciente terá de seguir uma série de cuidados
de saúde durante toda a vida.
Já a fibrose cística é um erro genético que
produz um problema nos canais de sódio das células. Por isso,
encontra-se sal na pele dessas crianças. O muco fica espessado e
muito suscetível à ação de bactérias.
É comum que a criança morra por enrijecimento do pulmão
e por isso uma das formas de tratamento é a fisioterapia.
Essas doenças não são privilégio de classe
social ou raça, afirma a biomédica. Elas são
produtos de erros genéticos e você nem sabe se tem o gen doente.

Se a doença for confirmada, imediatamente
é marcada a
consulta para início do tratamento. Os serviços são
multidisciplinares e a família é acompanhada por profissionais
de serviço social e psicologia.
Tania Marini de Carvalho
TRIAGEM NEONATAL - DE GUTHRIE A BENJAMIN SCHMIDT
história
da triagem neonatal (TN) no mundo teve início em 1961, quando o professor
Robert Guthrie (EUA) desenvolveu a primeira metodologia simples e barata
para dosagem da fenilalanina em amostras de sangue seco colhido em papel-filtro.
Este passo foi decisivo na disseminação da TN, com o diagnóstico
de diversas doenças em grandes populações, já
que permitia que a amostra fosse colhida à distância e enviada
pelo correio a laboratórios centrais.
Em 1968, a Organização Mundial de Saúde (OMS) publicou
recomendações gerais para a TN de Erros Inatos do Metabolismo
e, em 1972, Dussault (Canadá) desenvolveu a primeira metodologia
para dosagem de tiroxina (T4) em papel-filtro. Em 1974, um programa de TN
foi oficialmente oferecido na Província de Quebec. O primeiro programa-piloto
de TN para Hipotireoidismo Congênito nos EUA foi implantado em 1976
(Oregon e Massachusetts). (...)
PROJETO PIONEIRO Entre nós, a TN teve início
em 1976, quando o professor Benjamin Schmidt criou o projeto pioneiro de
TN para fenilcetonúria na Associação de Pais e Amigos
dos Excepcionais de São Paulo. Em 1986 a mesma instituição
dava início à TN para o hipotireoidismo congênito. (...)
A primeira reunião oficial de trabalho da Sociedade Internacional
de Triagem Neonatal - INSN ocorreu em São Paulo (1988), durante o
7º Simpósio Internacional de Triagem de Erros Inatos do Metabolismo,
a convite da Apae de São Paulo, então representada pelo professor
Benjamin Schmidt. (...)
A participação dos brasileiros nos congressos da ISNS sempre
foi muito expressiva. No 4º Encontro da ISNS, realizado em Estocolmo
em junho de 1999, estavam presentes 30 brasileiros representando 12 serviços
de TN de sete estados. Na reunião pré-congresso de Controle
de Qualidade, realizada em Turku (Finlândia), foi discutida, entre
os brasileiros presentes, a necessidade da criação de uma
sociedade brasileira. Em 18 de setembro de 1999 houve uma reunião
em São Paulo, com a participação da quase totalidade
dos grupos de TN do País, considerada data e local da fundação
da SBTN.
(Extraído do Spot News, órgão informativo
da Sociedade Brasileira de Triagem Neonatal,
ano IV, nº 14 dezembro de 2006)