
Marco Antonio Abrahão
ompletaram-se,
com a realização do Enade de 2006, dez anos de avaliação
regular do sistema educacional brasileiro. O Enade é o teste que
o atual governo criou para substituir o antigo Provão, iniciativa
do governo anterior. Nesta última edição, além
de ter incluído 20 novas áreas de conhecimento inclusive
a Biomedicina , a prova introduziu o Indicador de Diferença
entre o Desempenho Objetivo e o Esperado (IDD), que mede o quanto
uma instituição de ensino superior contribui para a formação
do aluno, ampliando seu nível de conhecimento e sua competência
profissional.
Essa introdução do conceito de valor agregado,
pelo Enade, deu maior nitidez à radiografia do ensino superior, contribuindo
para acabar com o mito de que toda a instituição pública
é boa e o ensino superior privado é sempre ruim.
Os resultados divulgados pelo Ministério da Educação
(MEC) à Imprensa mostraram que, no conjunto, os alunos das instituições
públicas tiveram, como vem ocorrendo desde o tempo do Provão,
um desempenho melhor do que os das entidades privadas.
No entanto, graças ao novo indicador, o Enade apurou que 41,8% das
instituições federais de ensino superior tiveram um IDD negativo.
Ou seja: a avaliação constatou que quase metade da custosa
e extensa rede de ensino superior mantida pela União não conseguiu
agregar o valor que se esperava a seus alunos. No âmbito das instituições
privadas, 53,5% das avaliadas apresentaram um IDD positivo.
Essa descoberta do Ministério da Educação é
surpreendente. Ela revela que uma parte significativa das entidades educacionais
particulares de nível superior vem conseguindo formar adequadamente
os seus alunos e que a distância dessas instituições
das instituições federais é menor do que se imaginava.
Diante disso, as autoridades educacionais agora não têm mais
pretexto para tratar o setor privado como vilão, nem para continuar
tentando submeter todas as instituições públicas e
privadas de ensino superior existentes no País a um modelo único,
objetivo da reforma universitária encaminhada pelo governo ao Congresso.
A avaliação, de fato, mostrou que, diante da complexidade
da sociedade brasileira, o modelo mais adequado é o de um multissistema
de instituições de ensino superior, como ocorre, por exemplo,
nos Estados Unidos.
De qualquer forma, o mérito do último Enade foi mostrar que,
embora os gravíssimos problemas de qualidade ainda persistam, o governo
estava errado ao superestimar as instituições de ensino públicas
e desprezar o papel e a importância das privadas na formação
das novas gerações.
Como já tivemos oportunidade de expor, o Provão foi implantado
em 1995 numa demonstração clara de que o MEC perdeu o controle
do ensino superior em função da proliferação
dos cursos e da multiplicação dos Centros Universitários.
Foi a maneira encontrada para corrigir as irregularidades e, acima de tudo,
o reconhecimento de que as coisas nessa área, não estavam
resolvidas. O Enade, uma das formas de avaliação do Sinaes,
apareceu como nova versão. De qualquer maneira, não passa
de mais um fiscal do fiscal.
Quando o Provão surgiu, ficamos na expectativa de que fosse uma aferição
pautada na qualidade e que transmitisse confiabilidade, cabendo ao Conselho
Nacional de Educação reunir instrumentos de avaliação
que espelhem a realidade do ensino superior, sem deixar dúvidas com
relação à qualidade da instituição e
dos cursos e quanto ao desempenho dos professores e ao aproveitamento dos
acadêmicos. Enfim, sempre defendemos o aperfeiçoamento do sistema
para que se estabeleça o juízo de valor sobre a qualidade
do ensino, o aproveitamento dos alunos e o desempenho dos integrantes do
corpo docente.
No caso específico da Biomedicina, a forma como a avaliação
foi proposta não correspondeu à expectativa. Simplesmente
porque a comissão responsável pela elaboração
da prova não foi constituída somente por profissionais biomédicos,
desfigurando as questões e provocando o protesto das autoridades
da área, especialmente o Conselho Federal de Biomedicina. Pretendemos
que apenas biomédicos integrem o grupo, como já foi exposto
ao diretor de Estatísticas e Avaliação da Educação
Superior do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP)
do Ministério da Educação. E confiamos que a sugestão
seja aceita. Nossa preocupação constante é com a qualidade
do ensino. Somos adeptos da melhor formação, cumprindo a missão
do CRBM de fiscalizar a profissão e proteger a sociedade.
