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ARTIGO

DIFICULDADES NO TRATAMENTO DA INFECÇÃO PELO HIV/AIDS

VICENTE AMATO NETO E ACYR PASTERNAK

infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV) não é comparável a outras e o paradigma de tratamento tem mais semelhança com o de neoplasias e de cânceres, do que de doenças infecciosas. A razão disto é que, depois que o vírus ficou integrado ao genoma do hospedeiro, a situação é muito parecida com o que acontece num câncer: a quimioterapia mata 99,9% das células malignas, mas basta sobrar algumas que o mal cresce de novo. Nos casos de câncer, o sistema imune pode matar as células remanescentes desde que se consiga baixar a população de células com potência de replicação a números abaixo de 100.000 ou 10.000 ou talvez até menos. Contudo, isto não acontece na infecção pelo HIV, onde existem células infectadas e nas quais o vírus está completamente quieto, não fazendo nenhuma proteína que possa ser identificada pelo citado sistema imune. O vírus pode ficar latente por longo período de tempo e, enquanto latente, é indetectável. Eventualmente, a célula onde ele dorme em berço esplêndido acorda (ao contrário de um grande país que tem esta frase no hino nacional) e aí o vírus ativa-se e volta a replicar-se.
O tratamento da infecção pelo HIV, portanto, não deve parar nunca. Isto envolve custo e riscos — muitas drogas, senão todas que nós usamos, têm efeitos colaterais que seriam aceitáveis e mínimos se fossem usadas por dias ou meses; porém, tornam-se significativos quando utilizadas durante anos. A liposdistrofia a e síndrome metabólica que acompanham o emprego dos inibidores de protease, por exemplo, estão motivando asterosclerose e complicações vasculares que, seguramente, complicam a vida dos pacientes, motivando morbidade e mortalidade.
Insistimos: com os recursos que dispomos, hoje não é possível falar em cura da infecção pelo HIV e sim em remissão, como no caso de alguns tipos de cânceres — e remissão que tem que ser mantida com medicamentos utilizados a longo prazo. O problema da resistência vem aumentando, como esperado. Na verdade, em doentes sensíveis aos fármacos e que tomam recursos direitinho, sem perder nenhuma dose, a resistência ocorre muito raramente. Lamentável são os que se medicam de maneira irregular ou os que julgam que sararam parando o uso, ou os que obedeceriam regularmente se os produtos estivessem disponíveis regularmente. Em geral estão, mas nem sempre, e um dos contratempos que podem acontecer quando, por “burrocracia” (com dois erres mesmo) ou por incompetência do serviço público os medicamentos faltam, é favorecer o aparecimento de resistências, que vai exigir recomendação do uso de novos remédios, invariavelmente mais caros. Para a burocracia pública e, especialmente, para os colocados nos famosos cargos de confiança, isto pode não ter impacto, já que as resistências vão acontecer nas futuras gerações, depois das eleições, e até lá devem fazer ou seu pé-de-meia e esperam estar gozando do merecido ócio remunerado.

O tratamento não consiste apenas em dar medicamentos adequados e quanto a este aspecto estamos orgulhosos e satisfeitos do nosso sistema de atendimento a pacientes com infecção pelo HIV (se tivéssemos o mesmo sistema no atendimento referente à hipertensão e a outras doenças comuns, poderíamos desafiar a Suécia em matéria de saúde pública). Formamos muitos médicos competentes para o atendimento e demos a eles meios de laboratórios para poderem monitorar e avaliar o que estão fazendo — é possível até no serviço público, de maneira inteiramente gratuita, conseguir os exames para análise genética da resistência do vírus. Infecção pelo HIV é algo complexo, tanto que acabou virando uma subespecialidade em Infectologia, o que é impróprio — há necessidade de muitos conhecimentos e de atualização permanente quanto ao assunto. A grande deficiência no Brasil ainda é na prevenção, se bem que, inclusive nesse contexto, temos notado progressos. Não deve existir nenhum brasileiro que saiba ler ou que possua televisor que não tenha conhecimento de como se pega o HIV e, em escolas, está sendo realizado respeitável esforço de educação e respeito. Este é investimento apto a dar resultados melhores, pela informação de como é contraído o vírus antes da primeira relação sexual, capaz de ser a infectante. As campanhas contra a aids como trabalho de educação permanente são importantes e de certa forma estão acontecendo, mais tarde do que gostaríamos. Como diz o provérbio, antes tarde do que nunca.

Não subestimemos as futuras dificuldades: remédios mais caros, mais remédios e mais efeitos colaterais. Além disso, uma parte da população brasileira é inatingível através de comunicação e muito dificilmente educável. O muito que foi realizado deve receber congratulações. Todavia, não é aceitável dormir eternamente em berço esplêndido, com embalos pelos méritos passados, para não presenciarmos o mesmo destino da nossa gloriosa seleção de futebol na última Copa.


Vicente Amato Neto
e Jacyr Pasternack
são médicos e professores universitários