Editorial: Crescer ou inchar, questão de visão

Marco Antonio Abrahão

O amplo levantamento nacional realizado recentemente por representantes da categoria biomédica do qual tivemos o prazer de participar e que integra o documento "A Trajetória dos Cursos de Biomedicina no Brasil", coordenado pelos Ministérios da Educação e da Saúde, revela, entre outros aspectos de destaque, o pleno processo de crescimento da Biomedicina, provocado pela qualidade e pela confiança da sociedade científica que necessita de profissionais com capacidade e competência.

De acordo com dados da importante pesquisa, o curso de Biomedicina é, dentre as 14 profissões da área da saúde, o terceiro que apresentou maior crescimento de matrículas no período de 1991 a 2004, à taxa de 485,6%. Embora este dado seja amplamente satisfatório, por comprovar a importância da evolução do nosso curso e, conseqüentemente, de nossa profissão, a preocupação de quem ocupa a presidência do Conselho Regional de Biomedicina-1ª Região continua sendo uma só: elaborar políticas que promovam a melhoria da qualidade profissional dos egressos, bem como dos inscritos na instituição e que já se encontram em plena atividade no mercado.

Por isso é que mantemos a mesma estratégia há anos adotada e temos estado presente com constância nas instituições de ensino, congressos, simpósios e jornadas da área de abrangência do CRBM-1, sempre com o objetivo de mostrar aos acadêmicos e profissionais a razão do sucesso da Biomedicina: a qualidade comprovada dos profissionais, reconhecidos no País, que não se envolvem em escândalos e que contribuem substancialmente para a melhoria da saúde da população brasileira. E preservar essa situação privilegiada é fundamental.

Temos que ser estratégicos ao lidar com o crescimento, de tal forma que esta evolução crescente não entre em processo de autofagia. De que forma? O CRBM-1ª Região está preparando um projeto de divulgação da categoria para apresentá-la a sociedade. Agora é o momento. É hora de mostrar o número de profissionais, a quantidade de cursos. É hora de a sociedade conhecer quem somos, o que realizamos, qual a nossa real importância para a prevalência da saúde do povo brasileiro. E assim minimizar algumas injustiças. Exemplo?

Quando as TVs, as emissoras de rádio, os jornais e as revistas divulgam que uma cirurgia de grande porte se transformou em sucesso, o destaque sempre é dado para o último profissional da cadeia, ou seja, o cirurgião. Jamais é divulgada a importância do trabalho realizado por pesquisadores em vários anos de estudo, entre os quais os biomédicos. Portanto, o embasamento científico fornecido aos cirurgiões/clínicos é de suma importância e a sociedade, de um modo geral, não se apercebe deste fato.

Mas, como agir, como mostrar organização e como evitar o inchaço? Na verdade, não dá para simplesmente aplaudir a evolução sistemática do número de inscritos nos cursos ou a formação de um número cada vez maior de profissionais. O foco é outro, o foco se concentra na qualidade, justamente para que a Biomedicina não se transforme apenas em mais uma concorrida profissão da área da saúde.

Como combater essa ameaça? De nossa parte, vamos prosseguir com as nossas palestras nas instituições de ensino superior. Mas, ao mesmo tempo, vamos exigir que, por exemplo, os coordenadores dos cursos da nossa especialidade sejam biomédicos (sim, isso é óbvio; no entanto, há estabelecimentos que ainda colocam profissionais de outras áreas da saúde coordenando nossos cursos).

Vamos também demonstrar aos diretores de cursos e aos reitores que todos eles têm grande responsabilidade com relação aos novos egressos que despejam no mercado. E a forma de demonstrar essa responsabilidade é assumir o compromisso de formar profissionais com grande potencial e, mais que isso, ajudar a viabilizar o ingresso desses profissionais no mercado de trabalho.

Aliás, preocupados com a importância do aperfeiçoamento da organização da categoria é que pretendemos sugerir ao Conselho Federal de Biomedicina a criação de novos Conselhos Regionais em Estados que reúnam número substancial de profissionais inscritos e demonstrem pleno desenvolvimento, como são os casos do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro, para que, devidamente adequados às particularidades e necessidades das suas regiões, possam oferecer amparo a esses profissionais.

E ainda abordando a necessidade de assumir o compromisso de formar profissionais com grande potencial, ajudando-os na sua colocação no mercado de trabalho, vale lembrar que no Brasil corporativista, todos que fazem parte desta cadeia devem estar envolvidos, ou seja, acadêmicos, profissionais, coordenadores, diretores e reitores. E o resultado pretendido é que cada um desses participantes desempenhem efetiva e corretamente o seu papel. E o papel fundamental de todas as instituições envolvidas, por exemplo, é dar continuidade à divulgação do curso, ao trabalho do profissional, ajudar na criação do cargo e da carreira do biomédico no âmbito municipal, estadual e federal e buscar ampliar a sua atuação na rede privada.

Esta é a diferença fundamental entre crescer organizadamente, entendendo o mercado, e inchar. Dentro de suas possibilidades e limitações, o CRBM-1 tem trabalhado para alcançar esses objetivos. E o mais importante: essa idéia preferivelmente teria de ser aplicada por todos os elementos dessa cadeia. Com a experiência profissional acumulada, estamos convictos de que participar desse processo de crescimento organizado é muito mais eficaz do que ficar reclamando do sistema ou até mesmo ignorar a razão do insucesso.
Foto por: Arq. CRBM



Marco Antonio Abrahão

é presidente do
Conselho Regional de Biomedicina - 1ª Região