Crise provoca concentração dos laboratórios

O biomédico Flávio Teixeira de Souza constata as dificuldades encontradas pelos laboratórios de Análises Clínicas.


“O biomédico precisa tirar um pouco o foco do trabalho em bancada.
Há muitas outras coisas que podemos fazer.
Muitas vezes se pensa que na área comercial você tem de ser um administrador.
Não é bem assim, você precisa de conhecimento técnico para unir
as duas visões.”

Flávio Teixeira, consultor científico
e de serviços

Trabalhando como consultor científico e de serviços da Labtest Diagnóstica S/A, o biomédico Flávio Teixeira de Souza constata a crise por que passam os laboratórios de um ponto de vista muito diferente do profissional que atua em Análises Clínicas. E garante: “Hoje a tendência é termos os laboratórios grandões e os pequenininhos. Para os médios, há dois caminhos: ou fecham ou se unem a um grandão.”
Teixeira lembra que o faturamento principal dos laboratórios hoje é proveniente do Sistema Único de Saúde (SUS) e dos convênios particulares (principalmente a Unimed). “Em ambos, o preço é muito baixo”, afirma o biomédico, lembrando que o SUS não reajusta sua tabela desde 1991. “Quando vai comprar um equipamento, o laboratório faz conta de centavos e muitas vezes acaba escolhendo um fabricante com preço menor.”
A Labtest tem equipamentos na área de Bioquímica (que representa cerca de 50% do volume de exames nos laboratórios) fabricados no Japão e, portanto, com custo em dólar. “O laboratório precisa ter rotina acima de dez mil testes de bioquímica por mês para comprar nosso equipamento”, reconhece. “Com menos do que isso, não consegue cobrir os custos.” Conclusão: “Muitas vezes o laboratório deixa de comprar um equipamento de qualidade por causa do custo.” Segundo Teixeira, o reagente da Labtest tem um preço que não é o menor nem o maior no mercado.
Por causa dessas dificuldades, segundo o biomédico, os grandes laboratórios compram os médios para concentrar um número de exames maior e ter melhor poder de barganha numa negociação desse tipo. E alguns laboratórios bem pequenos sobrevivem por atender a uma clientela específica. “Uma de nossas funções é ir até o laboratório, conhecendo como está a situação, para encontrar a melhor forma de ele contar com o nosso produto”, explica.

Profissão exige visão técnica e comercial

O biomédico precisa tirar um pouco o foco do trabalho em bancada, em laboratório. Há muitas outras coisas que podemos fazer”, afirma o hoje consultor técnico Flávio Teixeira, procurando diminuir a resistência do biomédico em atuar em outras áreas. “Muitas vezes se pensa que na área comercial você tem de ser um administrador. Não é bem assim, você precisa de conhecimento técnico para unir as duas visões.”
Teixeira usa seu exemplo pessoal para fazer um alerta aos colegas. “Eu não tinha idéia de que ia trabalhar nisso, mas só volto para a bancada se realmente for necessário”, confessa. “Nesse cargo em que estou, não tem rotina, é um desafio atrás do outro.”
O profissional lembra também que a atuação nessa área exige uma visão maior do que são as Análises Clínicas. “Tem de estar por dentro das legislações da Anvisa, quanto os convênios pagam, o SUS... Tem de estar por dentro de tudo relativo à profissão.”
Segundo Teixeira, o biomédico entra nessa área com a vantagem de ter um amplo conhecimento em Análises Clínicas, como hormônios, hemogramas etc. “Tendo a noção da Administração Laboratorial, entende da parte do negócio, quanto vai gastar com reagente, esse tipo de coisa, e pode unir as duas formas de conhecimento.”


Empresa oferece capacitação

Flávio Teixeira de Souza formou-se em 2000, na primeira turma do curso de Biomedicina da Universidade de Franca, onde nasceu. Iniciou a carreira no laboratório da Santa Casa de Franca, onde trabalhava com kits produzidos pela Labtest. Um dia, mandou currículo para a empresa por meio da internet e participou de seleção para duas vagas na área comercial: uma para trabalhar no Sul do País, baseado em Curitiba, e outra para o Nordeste, com base em Recife.
Aprovado, passou oito meses do ano de 2002 em treinamento na fábrica de Belo Horizonte. “A grade do curso de Biomedicina não proporcionou formação na área comercial, mas a empresa queria mesmo alguém com perfil técnico para capacitar nessa parte”, lembra. “Se tivesse alguma formação na área de Administração Laboratorial, seria mais fácil”, assegura Teixeira, que, além de ser capacitado pela empresa, procurou cursos no Senac, como Direção de Negócios e Técnicas de Negociação. Sua intenção é iniciar em 2007 a pós-graduação em Gestão de Negócios. E faz um alerta para os estudantes: “Uma das coisas que contaram na minha contratação foram as horas de trabalho, não só remunerado, mas também em estágio”.
Transferido para Curitiba, Teixeira lembra que encontrou dificuldades. “Quando comecei, nem havia curso de Biomedicina em Curitiba e não se sabia o que era a profissão”, lembra. “Hoje, o profissional biomédico é visto com outros olhos.” A Labtest hoje emprega quatro biomédicos: além de Teixeira e do profissional que foi para Recife, há um responsável pelo controle de qualidade e outro que está sendo treinado para trabalhar em São Paulo.
A Labtest é um empresa brasileira que está há 35 anos no mercado e fabrica reagentes para Análises Clínicas, auxiliando na automação dos laboratórios para bioquímica. A empresa tem atuação nacional e internacional, especificamente na América Latina. Teixeira é o consultor científico e de serviços responsável pela Região Sul (Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul) e também pelo Paraguai (por isso, uma das exigências era o domínio da língua espanhola).
Teixeira atua em três áreas. Na científica, presta assessoria, capacitando os distribuidores e os usuários dos equipamentos. Na de serviços, qualifica os serviços dos distribuidores, com foco comercial. Finalmente, na área comercial, determina as cotas para os distribuidores e verifica se as metas estão sendo cumpridas.