voltar

 

Continuam desviando as verbas da Saúde

Marco Antonio Abrahão

quantia é imensa: pelo menos R$ 9 bilhões deixaram de ser investidos na rede de saúde pública em 2005 pelos municípios, Estados e pela União, fato que vem se repetindo nos últimos cinco anos como resultado da falta de regulamentação da Emenda Constitucional n° 29, que vincula os recursos orçamentários a serem aplicados obrigatoriamente na Saúde pelo Executivo.
O problema é que, sem a definição precisa do que deve ser incluído entre as ações e serviços públicos de saúde, prefeitos, governadores e ministros usam verbas que deveriam custear a melhoria do atendimento à saúde em obras, programas sociais e até no pagamento de servidores inativos.
Exemplo? Recentemente, a Câmara dos Deputados impediu que o governo federal retirasse R$ 1,2 bilhão do Ministério da Saúde para cobrir despesas do programa Fome Zero.
Mas, rotineiramente, verbas que deveriam financiar a melhoria do atendimento nos hospitais, a aquisição de equipamentos e a contratação de profissionais da área de Saúde são desviadas. Tudo porque a indefinição legal permite que se use o dinheiro
da Saúde para outros fins.
De acordo com o que vem sendo divulgado pela Imprensa, em 2005, a União aplicou R$ 3 bilhões de recursos da Saúde em programas dos Ministérios das Cidades e do Desenvolvimento Social. Os Estados fizeram o mesmo e retiraram da rede de saúde outros
R$ 4 bilhões. E os municípios usaram R$ 2 bilhões das verbas em projetos
de outras áreas que não a da Saúde.
Anualmente, os governos são obrigados a enviar ao Ministério da Saúde seus balanços dando conta dos investimentos realizados com as verbas repassadas. A Emenda Constitucional
n° 29 estabelece que a União deve destinar ao setor o valor aplicado no ano anterior acrescido da variação nominal do PIB. Os Estados precisam destinar 12% da arrecadação de impostos e os municípios, 15%. Atualmente, porém, apenas sete Estados e 67% das prefeituras cumprem a regra.

E esses números seriam ainda mais restritos se fossem desconsiderados os investimentos em outras áreas que mascaram os dados do balanço.
O presidente da Frente Parlamentar da Saúde, da Câmara dos Deputados, Rafael Guerra, afirmou ao jornal
O Estado de S.Paulo que o Ministério
da Saúde está empenhado na regulamentação da emenda constitucional, mas a área econômica
do governo não. De acordo com as informações divulgadas, o projeto de lei complementar já havia sido aprovado nas comissões da Câmara e estava pronto para votação no plenário até o fechamento desta edição da Revista do Biomédico.
O que ocorre com a área da saúde como conseqüência desse desrespeito, desses desmandos de não destinação
de verbas? Em primeiro lugar, fica completamente comprometido o setor de serviços. Em segundo, os profissionais não conseguem colocar em prática seus conhecimentos pela absoluta falta de recursos. Na verdade, tudo isso só interessa a quem quer se desvencilhar
do serviço e ter menos custos, ou seja,
o governo federal. Como conseqüência direta, as pessoas irão procurar outras alternativas visando atender suas necessidades, engordando ainda mais o caixa das operadoras e seguradoras.
É exatamente isso que os prestadores
de serviço não devem aceitar,
pois ficam cada vez mais dependentes das operadoras e seguradoras.
Infelizmente, porém, não há a grita geral das instituições da área contra esse estado de coisas. Não temos visto atitudes mais contundentes das várias entidades do setor. Nós, do CRBM, ao contrário, combatemos há anos estes e outros desmandos que prejudicam os profissionais da saúde em geral e da Biomedicina em particular, com sérias conseqüências para a saúde da população brasileira.


Marco Antonio Abrahão
é presidente do CRBM – 1ª Região