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vez, quando lecionava em uma faculdade, tinha uma amiga psicóloga
que disse-me que não gostava da palavra não. Ao
ler um artigo que eu havia escrito para uma revista da faculdade
e que começava com não, ela argumentou comigo que
o não é uma palavra muito negativa, sombria, cinzenta,
e que, da forma como eu havia colocado, logo no início
do parágrafo, iria tirar o ânimo do leitor.
Eu respeitava muito esta colega professora, não só
pelo ser humano que era, mas também pela sua competência
profissional. Era muito zelosa na sua arte de ensinar. Desta vez,
porém, fui obrigado a discordar da colega e ponderei que
seria difícil vivermos sem o não. Ouvimos esta palavra
desde a mais tenra idade: não ponha a mão
aí, não corra, não fale isso, não
vá por aí, e muitos outros nãos.
Depois repetimos estes mesmos nãos para nossos filhos,
só que é um não positivo (pode até
parecer um paradoxo); é um não com cara de sim.
É um não que ensina o caminho do bem, educa e leva
a hábitos salutares, morais e éticos. É um
não, como já mencionei, positivo.
O não é uma palavra do nosso vocabulário
que ouvimos muito ao longo da vida e que também falamos
muito. Para mim, embora mais uma vez contrariando a minha colega,
é o não uma palavra importante.
Quantas vezes você já falou não? Quantas vezes
você já ouviu um não? Quantos nãos
você se alegra por ter falado na hora certa e quantos nãos
você se arrepende de ter falado? Quantos nãos você
se entristeceu em ouvir? Quantos nãos muda o sentido de
uma vida; um caso de amor, sonhos e carreira profissional? Certamente
muitos de seus nãos destruíram alguns castelos e
quantos dos seus sonhos também não foram desfeitos
com um não?
Mas o não é necessário. Jamais viveríamos
sem ele. Tanto para ouvi-lo ou falá-lo. Muitas vezes um
não que você ouviu pode ter sido até bom para
você, pode ter mudado o rumo de sua vida para melhor. Quantos
dos nãos que os pais falaram para os filhos não
os livraram de encrencas? Muitos filhos que bateram os pés
e resmungaram porque ouviram um não dos pais poderão
agora estar agradecendo-os por este não. Tente passar um
dia sem o não e veja como é difícil.
O não está sempre em sua memória, você
está sempre lembrando dos nãos que nunca gostaria
de ter ouvido, dos nãos que nunca gostaria de ter falado
ou dos nãos que se arrepende de nunca ter dito. Existe
até um livro cujo título é: A Arte
de Dizer Não.
Vimos pois, que o não é muito necessário
à nossa vida e, sem contrariar novamente a minha colega,
diria que é realmente uma palavra negativa, sombria, cinzenta,
temida, mas, como já mencionei, pertence ao nosso vocabulário
e feliz ou infelizmente está em nosso dia-a-dia.
O único não que com certeza não devemos falar
é o não para nós mesmos; estas ocasiões
do não para nós mesmos são várias
como, por exemplo, o não dá mais!. Isto
porque este não é limitante, nos tolhe, nos tira
as novas perspectivas na vida, é um não do conformismo,
é o não do desânimo, é o não
do corpo e alma pesados. Este não dá mais!
nos leva ao fim de sonhos que ainda poderão ser sonhados
e |
realizados. O não dá mais! é
perigoso, nos mina as forças intelectuais, nos limita,
nos deprime.
Portanto, o não dá mais! é
um não crítico negativo, de um triste conformismo
e que limita a nossa vida, criando barreiras que, por vezes,
só nós estamos vendo.
Sempre dá! Sempre dá para se buscar algo desejado;
dá sempre tempo para ser ético, dá sempre
tempo para ser bom, dá sempre tempo para se fazer alguém
feliz, olhar o céu, o mar, a lua e a alma bonita das
pessoas. O não dá mais! significa
uma chegada inglória por um caminho que você não
queria percorrer. O não dá mais! não
permite que você reúna forças para retomar
um caminho de volta e achar o caminho certo, percorrê-lo
e chegar vitorioso.
Quantos atletas que, se no meio da jornada, pensassem no não
dá mais! não chegariam ao fim colimado e
deixariam de carregar a taça? Portanto, não diga
para você não dá mais!, pois
isto não é próprio dos lutadores, dos fortes,
dos que têm garra, dos que têm fé e determinação.
Não é próprio de quem não se deixa
vencer pelos obstáculos da vida.
Risque o não dá mais! da sua vida
e creia: sempre há tempo para reparar os erros, para
discernimento do que é bom ou ruim, para usufruir da
vida que generosamente Deus nos deu, para se recuperar, para
exercer a sublime arte de amar, para estudar e trabalhar para
ser moral e ético.
Não jogue a toalha tal qual o lutador que se assusta
com o sangue e pede para sair da luta, lembre-se que a força
vem de dentro de nós, do âmago, da parte intrínseca
do coração e da alma.
Sempre há, pois, tempo para perdoar que é
um dos mais nobres atos do ser humano. Sempre há tempo
para pedir perdão o que também é
nobre. Sempre há tempo para sorrir, mesmo que seja para
mudar o curso de uma lágrima fortuita. Sempre há
tempo para a dignidade, o afeto e a cortesia. Não
dá mais! não é para você. Troque
pelo ainda há tempo; de realizar projetos,
de chamar o amigo de volta, de dizer que ama alguém,
de juntar os cacos de algo destruído e reconstituir,
seja no lar, no trabalho, na escola ou mesmo nos sentimentos.
Sempre há tempo! Então junte estes cacos e dê
a forma digna que você gostaria de dar. Se preciso for,
recomece o caminho, refaça seus conceitos éticos,
refaça amizades, dê sentido ao amor.
Não dá mais? Dá sim!
Até a próxima... 

Wilson de Almeida Siqueira
é vice-presidente do CRBM em São Paulo e presidente
da Comissão de Ética e Docência.
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