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Não dá mais!

Wilson de Almeida Siqueira

erta vez, quando lecionava em uma faculdade, tinha uma amiga psicóloga que disse-me que não gostava da palavra não. Ao ler um artigo que eu havia escrito para uma revista da faculdade e que começava com não, ela argumentou comigo que o não é uma palavra muito negativa, sombria, cinzenta, e que, da forma como eu havia colocado, logo no início do parágrafo, iria tirar o ânimo do leitor.
Eu respeitava muito esta colega professora, não só pelo ser humano que era, mas também pela sua competência profissional. Era muito zelosa na sua arte de ensinar. Desta vez, porém, fui obrigado a discordar da colega e ponderei que seria difícil vivermos sem o não. Ouvimos esta palavra desde a mais tenra idade: “não ponha a mão aí, não corra, não fale isso, não vá por aí”, e muitos outros nãos.
Depois repetimos estes mesmos nãos para nossos filhos, só que é um não positivo (pode até parecer um paradoxo); é um não com cara de sim. É um não que ensina o caminho do bem, educa e leva a hábitos salutares, morais e éticos. É um não, como já mencionei, positivo.
O não é uma palavra do nosso vocabulário que ouvimos muito ao longo da vida e que também falamos muito. Para mim, embora mais uma vez contrariando a minha colega, é o não uma palavra importante.
Quantas vezes você já falou não? Quantas vezes você já ouviu um não? Quantos nãos você se alegra por ter falado na hora certa e quantos nãos você se arrepende de ter falado? Quantos nãos você se entristeceu em ouvir? Quantos nãos muda o sentido de uma vida; um caso de amor, sonhos e carreira profissional? Certamente muitos de seus nãos destruíram alguns castelos e quantos dos seus sonhos também não foram desfeitos com um não?
Mas o não é necessário. Jamais viveríamos sem ele. Tanto para ouvi-lo ou falá-lo. Muitas vezes um não que você ouviu pode ter sido até bom para você, pode ter mudado o rumo de sua vida para melhor. Quantos dos nãos que os pais falaram para os filhos não os livraram de encrencas? Muitos filhos que bateram os pés e resmungaram porque ouviram um não dos pais poderão agora estar agradecendo-os por este não. Tente passar um dia sem o não e veja como é difícil.
O não está sempre em sua memória, você está sempre lembrando dos nãos que nunca gostaria de ter ouvido, dos nãos que nunca gostaria de ter falado ou dos nãos que se arrepende de nunca ter dito. Existe até um livro cujo título é: “A Arte de Dizer Não”.
Vimos pois, que o não é muito necessário à nossa vida e, sem contrariar novamente a minha colega, diria que é realmente uma palavra negativa, sombria, cinzenta, temida, mas, como já mencionei, pertence ao nosso vocabulário e feliz ou infelizmente está em nosso dia-a-dia.
O único não que com certeza não devemos falar é o não para nós mesmos; estas ocasiões do não para nós mesmos são várias como, por exemplo, o “não dá mais!”. Isto porque este não é limitante, nos tolhe, nos tira as novas perspectivas na vida, é um não do conformismo, é o não do desânimo, é o não do corpo e alma pesados. Este “não dá mais!” nos leva ao fim de sonhos que ainda poderão ser sonhados e

realizados. O “não dá mais!” é perigoso, nos mina as forças intelectuais, nos limita, nos deprime.
Portanto, o “não dá mais!” é um não crítico negativo, de um triste conformismo e que limita a nossa vida, criando barreiras que, por vezes, só nós estamos vendo.
Sempre dá! Sempre dá para se buscar algo desejado; dá sempre tempo para ser ético, dá sempre tempo para ser bom, dá sempre tempo para se fazer alguém feliz, olhar o céu, o mar, a lua e a alma bonita das pessoas. O “não dá mais!” significa uma chegada inglória por um caminho que você não queria percorrer. O “não dá mais!” não permite que você reúna forças para retomar um caminho de volta e achar o caminho certo, percorrê-lo e chegar vitorioso.
Quantos atletas que, se no meio da jornada, pensassem no “não dá mais!” não chegariam ao fim colimado e deixariam de carregar a taça? Portanto, não diga para você “não dá mais!”, pois isto não é próprio dos lutadores, dos fortes, dos que têm garra, dos que têm fé e determinação. Não é próprio de quem não se deixa vencer pelos obstáculos da vida.
Risque o “não dá mais!” da sua vida e creia: sempre há tempo para reparar os erros, para discernimento do que é bom ou ruim, para usufruir da vida que generosamente Deus nos deu, para se recuperar, para exercer a sublime arte de amar, para estudar e trabalhar para ser moral e ético.
Não jogue a toalha tal qual o lutador que se assusta com o sangue e pede para sair da luta, lembre-se que a força vem de dentro de nós, do âmago, da parte intrínseca do coração e da alma.
Sempre há, pois, tempo para perdoar — que é um dos mais nobres atos do ser humano. Sempre há tempo para pedir perdão — o que também é nobre. Sempre há tempo para sorrir, mesmo que seja para mudar o curso de uma lágrima fortuita. Sempre há tempo para a dignidade, o afeto e a cortesia. “Não dá mais!” não é para você. Troque pelo “ainda há tempo”; de realizar projetos, de chamar o amigo de volta, de dizer que ama alguém, de juntar os cacos de algo destruído e reconstituir, seja no lar, no trabalho, na escola ou mesmo nos sentimentos.
Sempre há tempo! Então junte estes cacos e dê a forma digna que você gostaria de dar. Se preciso for, recomece o caminho, refaça seus conceitos éticos, refaça amizades, dê sentido ao amor.
Não dá mais? Dá sim!
Até a próxima...


Wilson de Almeida Siqueira
é vice-presidente do CRBM em São Paulo e presidente da Comissão de Ética e Docência.