transmissão
da doença de Chagas por caldo de cana no litoral de Santa
Catarina, que causou a contaminação de mais de 30
pessoas, com seis mortes, surpreendeu a população.
Afinal, na escola se aprende que a transmissão do protozoário
Trypanosoma cruzi, causador da doença, é feita pela
picada do inseto conhecido como barbeiro. No entanto, a transmissão
oral da doença não é inédita, segundo
o médico infectologista Vicente Amato Neto, professor emérito
da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e
articulista da Revista do Biomédico.
Durante muito tempo, o enfoque do assunto era o da transmissão
pelo barbeiro, explica Amato. O inseto vivia em casas de
péssima qualidade, de pau-a-pique, em condições
de higiene inadequadas. Houve vontade política, um
trabalho muito bem feito ao longo dos anos, e a transmissão
pelo barbeiro ficou controlada, explica Amato. Usou-se
bastante inseticida e houve um programa governamental de substituição
de casas, de forma que hoje dificilmente se encontram as de pau-a-pique,
avalia o professor, informando que ainda há pequenos focos
no sul da Bahia e no norte de Minas Gerais. A preocupação
agora é com o barbeiro silvestre.
BIOMÉDICO Sempre se soube também
de mecanismos alternativos de transmissão da doença,
que nunca estiveram muito em foco. São eles: a transmissão
de mãe a filho durante a gestação, a doação
de sangue (a mais controlada de todas), o transplante de órgãos,
o leite materno (já foi comprovado) e até a transmissão
acidental em laboratório. Este último caso merece
uma atenção maior do biomédico. Em
minha vida de pesquisador, conheci cerca de 50 profissionais
que adquiriram a doença no trabalho em laboratório,
lembra Amato.
Em todos os estudos, a transmissão oral nunca foi levada
muito em conta. A transmissão oral sempre foi tida
como curiosidade, assim como já se falou em transmissão
por relação sexual, por picada de percevejos e
piolhos, casos nunca confirmados, afirma. O problema é
que a transmissão oral já foi confirmada. O primeiro
caso de que se tem notícia foi em Teotônia, Rio
Grande do Sul, em 1965, quando ficou comprovada a transmissão
por via oral, mas não se detectou o mecanismo. Outro
caso confirmado aconteceu em 1986, em Catolé do
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Rocha, na Paraíba, com comprovação
detalhada. Foi grotesco, comenta Amato. Durante uma
churrascada, foi utilizada uma máquina suja para fazer
caldo de cana e trituraram a cana-de-açúcar junto
com o barbeiro. As pessoas que tomaram o caldo adquiriram a doença,
mas apenas um idoso, que já tinha problemas de saúde,
morreu. Fizemos estudos em laboratório e comprovamos
que o Trypanosoma cruzi pode sobreviver por quatro horas no caldo
de cana, informa o pesquisador.
DÚVIDAS No caso de Santa Catarina, está
claro que a doença foi transmitida pelo caldo de cana.
Mas, para Amato, há muitas dúvidas para serem
respondidas. Como foi a transmissão? O que sujou
o caldo? Foram barbeiros? Onde estão? Podem ainda ter
sido animais reservatórios, pois, segundo o professor,
o Trypanosoma cruzi já foi encontrado em fezes de gambás
e tatus.
Um dos principais problemas é o armazenamento da cana
e do caldo. Vi umas fotos do moedor de cana que realmente
são lamentáveis, afirma Amato, que prega
a necessidade de uma investigação quase policial
para se responder a uma série de perguntas. Onde o fornecedor
pega a cana? Como está essa cana quando ele pega? Depois
que o fornecedor vende a cana para o quiosque, como ela é
armazenada? A cana é lavada antes do uso? Pelo
que eu sei, é muito raro a cana ser lavada. O sujeito
só passa um faca onde está mais sujo, adverte
o professor.
Outro ponto ressaltado por Amato é que seis pessoas morreram,
um número considerado elevado porque, na fase aguda da
doença, os adultos em geral não morrem e quem
for tratado pode ser curado definitivamente. O professor formula
duas hipóteses: Deve ser uma cepa do Trypanosoma
muito virulenta ou então tomaram uma quantidade muito
grande do caldo.
De qualquer maneira, Amato garante que não há
motivo para alarme. Acho que estão maltratando
a doença de Chagas, afirma. Ela não
é emergente, não é um vírus como
o que causou a SARS (a pneumonia asiática) e é
uma doença muito bem conhecida, garante. 
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