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O milagre da reprodução!

Marco Antonio Abrahão

ão, não se trata de nenhuma citação bíblica. Estamos nos referindo, ao contrário, à época atual, às imensas dificuldades do mundo contemporâneo, à difícil sobrevivência de estabelecimentos da área da saúde em tempos de uma economia globalizada. Trata-se, enfim, da luta árdua dos proprietários e diretores de laboratórios clínicos.
Como se não bastasse a terrível e insuportável voracidade fiscal imposta pelo governo ao longo de décadas, que atinge toda a sociedade brasileira, voracidade essa amplamente demonstrada e comprovada, há a terrível situação em que vivem os proprietários dos laboratórios de análises clínicas, prestadores de serviço que são vítimas do atual sistema de saúde implantado em nosso país.
Que situação? Basta citar que, se a inflação dos últimos dez anos ultrapassou a marca dos 100%, as operadoras não liberaram nenhuma reposição inflacionária, nenhuma compensação financeira ao longo desse período. Ao contrário. Tanto assim é que o chamado coeficiente de honorários (CH), cujo valor pretendido era de 0,29 em 1º de junho de 1994 (quando do estabelecimento do Plano Real) não alcançou o objetivo e hoje, passado tanto tempo, o praticado está em torno de 0,18/0,20. Ou seja: as operadoras reduziram o coeficiente de honorários e os prestadores de serviço enfrentam tragicamente esta deflação imposta.
Pior: ao mesmo tempo em que reduzem o valor do CH aos prestadores de serviço, as operadoras aumentaram substancialmente os valores cobrados dos clientes dos planos de saúde, provocando grandes protestos da sociedade durante o já citado período. Além disso, alegam que o motivo do aumento é pagar os prestadores de serviço.
Um verdadeiro milagre da multiplicação da atualidade é o que realizam os diretores de laboratórios clínicos porque cada vez recebem menos das operadoras e, ao mesmo tempo, têm de fazer frente às sempre crescentes despesas com a elevação de salários dos funcionários, com manutenção, com aquisição de equipamentos, de insumos e matéria prima, além de enfrentarem a já citada voracidade fiscal. Isso sem contar que, corretamente, a sociedade exige, cada vez mais, qualidade nos serviços prestados. E essa qualidade implica, por sua vez, a implantação de Boas Práticas de Laboratórios Clínicos, a constante adoção de controles interno e externo da qualidade e a utilização de sistemas acreditação variados. Prevalece, assim, a rotina de deflação no ganho e hiperinflação nos custos diretos.
Tudo isso ocorre em função da ausência de equilíbrio no relacionamento entre operadores e prestadores de serviço. E a má remuneração aos laboratórios inviabiliza a adoção de um esquema eficiente de procedimentos entre os prestadores de serviço. Como conseqüência sofrem todos os que trabalham: diretores, biomédicos empregados e a equipe técnica.Preocupado com a difícil situação e dentro de uma de suas missões primordiais que é proteger a sociedade, o Conselho Regional de Biomedicina procurou levantar dados

para mostrar o ritmo de crescimento constante do rendimento das operadoras em contraste com a comprovada redução financeira auferida pelos prestadores de serviço.
Recente levantamento realizado pelo Conselho Regional de Economia - 2ª Região com relação aos aumentos efetuados pelos planos de saúde revela que, desde o início do plano real até fevereiro de 2003, o índice de reajuste auferido foi de 169,66%, enquanto os percentuais de inflação no período registraram 147,11% (IPCA) e 154,12% (INPC), de acordo com dados do IBGE.
Outra pesquisa revela que o aumento do preço das mensalidades dos planos de saúde no período compreendido entre janeiro de 99 e fevereiro de 2001, por exemplo, foi de 17,92% contra 15,55% do índice geral medido pelo IPCA/IBGE.
No que se refere ao histórico dos reajustes obtidos pelas operadoras em período mais recente, por exemplo, os percentuais foram, de acordo com a Agência Nacional de Saúde Complementar (ANS), de: 5,42% (2000), 8,71% (2001), 7,69% (2002), 9,27% (2003) e 11,75% (2004). Mas os laboratórios que prestam serviços a essas operadoras não tiveram esse repasse.
Não faltam, portanto, elementos para comprovar, de um lado, os lucros das operadoras e, de outro, os prejuízos dos laboratórios clínicos. Há necessidade, portanto, de um controle maior das autoridades da área de saúde que proporcione uma remuneração digna aos prestadores de serviço. Não dá mais para que esses prestadores de serviço tenham parcos rendimentos e sejam obrigados a fazer frente às despesas crescentes e às exigências de um mercado que só aceita trabalhos de comprovada eficiência. Mas, infelizmente, o que se verifica atualmente é que resta para os laboratórios clínicos a responsabilidade por um serviço de qualidade, enquanto o lucro da relação entre o consumidor e a operadora vai todo ele para intermediários.
Enfim, a proposta real desta manifestação é que uma reflexão seja feita pelos diretores dos laboratórios clínicos do país: a competição deve existir, a concorrência é salutar, mas ela deve girar em torno da busca da qualidade e não em aceitar remuneração indigna, imaginando que, em um curto espaço de tempo, o seu concorrente irá sucumbir e aí possam os sobreviventes ficar com esta fatia do mercado.
Se fizermos um levantamento a respeito dos departamentos ou setores mais utilizados por pacientes iremos verificar que o laboratório clínico com certeza é o principal, o mais procurado. Portanto, o que está faltando na verdade é fazer prevalecer na prática esta grande importância. Na nossa modesta opinião, somente aqueles que tiverem esta competência é que permanecerão no mercado.


Marco Antonio Abrahão
é presidente do CRBM – 1ª Região