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CÉLULAS-TRONCO
Nem tanto otimismo que crie falsa ilusão,nem tanto pessimismo que mate a esperança
LEILA MONTENEGRO SILVEIRA FARAH
noite do dia 2 de março de 2005 a Câmara Federal aprovou a Lei da Biossegurança, regulamentando a pesquisa com células-tronco de embriões e o plantio e a comercialização de produtos transgênicos. A liberação de pesquisas científicas com células-tronco representa um avanço para o país. Mais do que a resposta positiva a um desejo de grande parte da população brasileira e da comunidade científica, tal fato mostrou-se uma vitória contra o obscurantismo. Houve por parte dos deputados, representantes do povo brasileiro, o reconhecimento de que as leis devem regular e ordenar os caminhos da nação, sem impedir que se siga adiante.
Decidiu-se que embriões humanos que constituam sobra de tratamentos para fertilidade poderão ser empregados em estudos científicos. Células-tronco embrionárias despontam como a grande esperança da medicina no século 21. Ao contrário das células adultas, elas conservam a capacidade de converter-se em qualquer tipo de tecido, de nervos a ossos. Especula-se que sejam a chave para o tratamento de várias doenças degenerativas como mal de Parkinson, diabetes e até alguns tipos de câncer. Mais do que isto, imagina-se que com células-tronco será possível reparar órgãos danificados e até criar “peças” sobressalentes para transplantes. É claro que tudo isto ainda são hipóteses, que poderão ou não se concretizar. Mesmo que o façam, é importante frisar que ainda estamos a muitos anos de tratamentos não-experimentais efetivos.
No dia que antecedeu a votação, o Salão Verde da Câmara recebeu um público diferente, composto por cientistas, parentes de pacientes com deficiências físicas que podem ser beneficiados com as pesquisas no futuro e outras pessoas interessadas. Passaram o dia conversando com deputados, relatando seus casos e pedindo a aprovação do texto. Vários acompanharam a sessão. Depois, voltaram ao Salão Verde para comemorar. Alguns choraram.
A Câmara dos deputados aprovou a retirada de células-tronco de embriões congelados que foram armazenados há cerca de três anos, com o consentimento dos pais, para serem utilizados em pesquisas. Após quatro anos de armazenamento, estes embriões são descartados. As células-tronco estão trazendo esperança para muitos pacientes, mas ainda existe um longo caminho pela frente. Existem hipóteses de que as células-tronco, se inseridas de forma incorreta, poderiam desenvolver tumores nos tecidos em que foram aplicadas. Em contrapartida, poderiam salvar vidas e amenizar o sofrimento de muitos seres humanos. Só a ciência poderá desvendar tantas questões e, quem sabe, apresentar soluções para tantas doenças incuráveis até o momento. Células-tronco são células indiferenciadas, que podem se multiplicar e regenerar tecidos lesionados porque têm a capacidade de se transformar em células idênticas às dos tecidos onde foram implantadas. Existem três fontes de células-tronco: a medula óssea de pessoas adultas, o cordão umbilical e os embriões. As obtidas de embriões são conhecidas como totipotentes e podem se transformar em qualquer tipo celular. Temos também células-tronco adultas em vários tecidos: sangue, medula óssea, fígado e cordão umbilical. As células-tronco adultas têm algumas limitações, pois não podem se diferenciar em qualquer célula. Algumas aplicações são muito bem sucedidas: o transplante de células-tronco retiradas da medula óssea (e mais recentemente do cordão umbilical e da placenta) de doadores compatíveis para tratar leucemia é um exemplo de terapia celular de grande sucesso.
Deve-se sempre ter em mente que somente as células-tronco embrionárias são pluripotentes, ou seja, têm a capacidade de produzir todos os 216 tecidos do nosso corpo. Espera-se que inúmeras condições, muitas delas letais na infância ou no início

da vida adulta, tais como algumas doenças neuromusculares, diabetes, mal de Parkinson e lesões de medula, possam ser tratadas pela substituição ou correção de células ou tecidos defeituosos. A terapia celular com células-tronco representa um avanço gigantesco nas técnicas hoje existentes de transplantes de órgãos. Se as pesquisas derem os resultados esperados, a expectativa é que no futuro seja possível fabricar tecidos e órgãos em quantidade suficiente para todos. Mas, para chegar lá, será necessário vencer inúmeros obstáculos.
A imprensa tem divulgado muitos casos de tentativa de terapia utilizando células-tronco adultas. Pesquisas com células adultas já foram iniciadas em pacientes cardíacos ou em outras doenças como esclerose múltipla, acidente vascular ou diabetes. O tratamento de lesões cardíacas ou a recuperação do tecido nervoso em pessoas que sofreram acidentes vasculares com células tronco obtidas da própria pessoa, o que corresponde a um auto-transplante, ainda são experimentais. Muitas perguntas ainda esperam ser respondidas. Não se sabe exatamente quanto tempo será necessário até que a pesquisa dê os resultados desejados, ou seja, que tenha aplicação clínica e possa realmente vir a diminuir o sofrimento dos pacientes, proporcionando-lhes uma melhor qualidade de vida, ou, quem sabe, a própria cura.
Outra questão é a respeito do número de embriões que estariam disponíveis para serem doados para pesquisa nas várias clínicas de reprodução assistida do país. A imprensa chegou a divulgar números extremamente exagerados, da ordem de 30 mil embriões, mas estes números não correspondem à realidade. Não se pode esquecer que os embriões necessitam estar congelados há mais de três anos e que os casais formalizem a doação dos embriões para finalidade de pesquisa. Além disso, sabe-se que muitos destes embriões poderão não sobreviver ao processo de descongelamento.
Algumas religiões, como a católica, se opõem a este tipo de pesquisa porque ela implica, atualmente, a destruição dos embriões e a Igreja Católica defende que a vida se inicia no momento da fecundação. Apesar de ser uma visão totalmente respeitável, é baseada num dogma não-compartilhado por outras crenças ou pelo conjunto da sociedade. A questão do início da vida é mais religiosa, dogmática, do que propriamente científica. As diversas religiões determinam que a vida começa em momentos distintos, indo desde o instante do encontro do óvulo com o espermatozóide, passando pelo período em que as mães podem sentir o feto se mexendo no útero e indo até a necessidade da viabilidade fetal fora de útero materno. Nos países onde a permissão de pesquisa com células embrionárias foi autorizado há mais tempo, existe um limite de até 14 dias, período em que o sistema nervoso ainda não está formado.
Não seria razoável que toda a população se visse privada dos potenciais benefícios das células-tronco apenas para não violentar a consciência de alguns. Além disso, a nova lei apenas autorizou a pesquisa com embriões excedentes de tratamentos de reprodução assistida, que acabariam sendo destruídos de qualquer maneira ou mantidos congelados indefinidamente. O Congresso mostrou um sábio pragmatismo ao liberar o cultivo de organismos transgênicos após avaliação técnica de segurança e ao permitir a pesquisa com embriões já fadados à destruição.



Leila Montenegro Silveira Farah
biomédica especialista em Genética e
Citogenética Humana, é conselheira do CRBM
e coordenadora da Comissão de Genética

“Não se sabe exatamente quanto tempo será necessário até que a pesquisa dê os resultados desejados, ou seja, que tenha aplicação clínica
e possa realmente vir a diminuir
o sofrimento dos pacientes, proporcionando-lhes uma melhor qualidade de vida, ou, quem sabe,
a própria cura.”


Leila Montenegro Silveira Farah

“Com a aprovação da Lei da Biossegurança, o Brasil dá mais um passo para constituir-se na República moderna, aberta, pluralista e laica que deve ser.”

Folha de São Paulo,
editorial de 04/03/2005

“É uma grande vitória para a pesquisa no Brasil. Vai permitir que o País possa desenvolver sua competência em pesquisas com células-tronco, agora também embrionárias . Foi dado um passo enorme para o avanço da ciência.”


Lygia da Veiga Pereira, professora do
Instituto de Biociências da USP

“É preciso muito cuidado para que não se confunda pesquisa com tratamento – há uma pressão enorme de pessoas que já querem se tratar. Por outro lado, é muito importante continuar divulgando como isto será feito, porque já tem gente dizendo que vai injetar células embrionárias”.


Mayana Zatz, professora titular do departamento de biologia do Instituto de Biociências da USP

“Sem uma lei precisa é impossível tomar uma decisão a respeito da doação embriões para pesquisa. Depois que a Lei da Biossegurança estiver em vigor, os embriões só poderão ser liberados para pesquisas em células-tronco mediante um novo consentimento informado dos casais”


Édson Borges Jr, diretor do Fertility,
Centro de Reprodução Assistida