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Pestes benéficas

Vicente Amato Neto e Jacyr Pasternak

este é doença contagiosa grave, epidemia, pestilência. Portanto, afigura-se muito estranho que algo dessa natureza possa ter vínculo com benefícios. Em sentido estrito, essa relação só causa, sem dúvida, configuração de algo contraditório e não é lícito fugir dessa concepção. A despeito disso, pareceu-nos interessante e ilustrativo mostrar que de infortúnios é viável o advento de proveitos.
A síndrome da imunodeficiência adquirida (aids) constitui conseqüência da infecção devida ao vírus da imunodeficiência humana (HIV). Em ritmo crescente, ela causa expressivos transtornos médico-assistenciais, econômicos, afetivos, legais, trabalhistas e comportamentais, entre outros. No entanto, paradoxalmente, teve participação em alguns melhoramentos que se mostram agora muito úteis. Como exemplo é válido citar os seguintes: inclusive no Brasil, a implantação da Lei do Sangue, ou Lei Henfil, responsável por benfeitorias no âmbito da Hemoterapia, sobretudo quanto à aprimorada seleção de doadores; a valorização da vigilância epidemiológica no que tange à notificação compulsória de doenças, antes muito mal cumprida ou ensinada por aqui; concessão de base para desenvolvimento de novas técnicas laboratoriais utilizadas em diagnósticos, presentemente aplicáveis a diversas enfermidades; demonstração de que é executável doação gratuita de remédios pelo governo, até quando são caros e de alta complexidade. Essa relação serve, cremos, como ilustração e com certeza, aceita ampliação. Considerações congêneres são cabíveis ao rememorarmos o que aconteceu com a síndrome respiratória aguda grave (sars), moléstia surgida recentemente e

com facilidade, pela via respiratória. Hoje, encontra-se em fase de quiescência, para a qual almejamos enorme durabilidade. Esse mal, como a aids, foi estímulo para progressões, pelo menos em parte, especificadas pelas seguintes citações: houve enorme valorização da tática de isolamento para coibir contágios, tendo essa atitude sido adotada freqüentemente com radicalidade e impulsionado a constituição de áreas modernas e eficientes, em contraste com a generalizada improvisação prevalente no Brasil; exaltação do valor dos Laboratórios de Saúde Pública capazes, porquanto em curtíssimo período de tempo, identificaram o novo vírus que originou a doença e apontaram marcantes conhecimentos paralelos, resultando de tudo isto a convicção de que no contexto brasileiro há necessidade de mais órgãos de tal tipo, desde que suficientemente equipados, ocorrendo a colaboração de profissionais competentes e remunerados dignamente; constatação do judicioso labor de autoridades governamentais da área da saúde pública, em diferentes países, sempre revelando aptidão geradora de resultados elogiáveis; percepção da maturidade de membros da mídia, prestadores de informes corretos e orientadores com agilidade; inovações referentes à mensuração da temperatura corporal, sobrevindo disso, equipamentos aplicáveis com simplicidade e apontadores das cifras através da ligeireza e segurança.
O título desta crônica, compreensivelmente esdrúxulo e preocupante conforme algumas interpretações, fica aceitável se valorizados os fatos apresentados, demonstrativos de valorosas conseqüências de indesejáveis malefícios.



Os autores são médicos
e professores universitários