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O mais bonito.
A mais bonita.

Wilson de Almeida Siqueira

casa era de luxo. Grande em seus suntuosos aposentos ocupava uma enorme área em um bairro nobre da cidade. A dona da mansão era uma mulher simples, não deixava que a riqueza mudasse o seu modo de ser: humano e altruístico.
Naquela tarde havia um chá em sua nobre casa, e ela, permitia que sua empregada levasse para brincar com as crianças das visitas, a sua própria filha.
As mulheres sentadas na ampla sala, através de um vidro podiam ver brincando as suas crianças e, entre elas, a filha da empregada, que era fácil de ser notada, pelo humilde vestido que vestia, que contrastava com as roupas das demais.
Em dado momento, uma das convidadas, senhora da alta sociedade, muito rica e presunçosa, chamou a empregada da anfitriã e disse-lhe para ir ao quintal e trazer a criança mais bonita — certamente esperava que a empregada traria a sua filha. A empregada foi e voltou com a sua própria filha, e disse para a senhora que, dentre todas as crianças, para ela, a sua — a filha da empregada — era a criança mais bonita.
Comecei com esta história para dizer que, para os pais, os seus filhos são sempre os mais bonitos, mais inteligentes, mais educados, enfim, que para os pais, seus filhos são os únicos. Eles procuram sempre enaltecê-los. Será, porém, que os pais também se preocupam em tornar seus filhos bonitos por dentro? Prepará-los desde o berço a serem educados, humanos e éticos em condições de conviver em uma sociedade, serem úteis à ela?
Esta “beleza” é que os pais mais devem se orgulhar de verem nos filhos. Tem um valor incomensurável e sobrepuja a beleza física.
Meu filho é o mais bonito! A minha filha é a mais bonita! Se depois dessa frase você puder continuar dizendo: eles são os mais bonitos porque respeitam os semelhantes, são honestos, são educados para com os seus superiores e subalternos, respeitam seus professores e têm moral... Que beleza!

Podem sim o seu filho e a sua filha serem os mais bonitos, com a beleza que, com o balançar do berço, em sua casa, você começou a ensinar.
Ontem vi um aluno agredir um professor — verbalmente — e foi tão drástico que para o mestre deve ter doído mais do que uma pancada. Quando advertido, o aluno disse que o pai iria à faculdade para resolver tudo. Era um belo jovem, bem vestido, bonito, mas, que beleza é esta? Este pai pode dizer que seu filho é o mais bonito? Tal como a empregada que buscou sua filha entre as “belas” do jardim, ele pode entrar na sala de aula e apontar o seu filho como um Narciso?
É por esta razão que eu sempre lembro o grande educador Pedro de Camargo, que diz: “Educação é o desenvolvimento dos poderes psíquicos ou anímicos que todos possuímos em estado latente, como herança havida d’Aquele de quem todos nós procedemos“.
Pestalozzi também diz: “Educação é o desenvolvimento harmônico de todas as faculdades do indivíduo“.
Os pais têm uma grande preocupação —louvável — sobre a educação dos filhos no que diz respeito a inteligência. Querem vê-los triunfar numa profissão que lhes possibilite independência econômica, que lhes proporcione riqueza, fama e glória, mas por vezes se esquecem do alicerce para esta conquista — o berço — a educação de torná-los belos na alma, condição que os fará completos.
Busque seu filho ou sua filha em meio aos filhos dos outros, eleja-os os mais bonitos, mas tenha consciência: que beleza é esta?
Até a próxima...


Wilson de Almeida Siqueira
é vice-presidente do CRBM em São Paulo e presidente da Comissão de Ética e Docência.