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A farra dos banqueiros e o empobrecimento da sociedade

Marco Antonio Abrahão

“Não vejo a hora de os juros baixarem e a economia retomar seu crescimento”. - Luiz Inácio Lula da Silva

o completar os primeiros 100 dias de governo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um balanço de sua atuação, oportunidade em que afirmou: “Não vejo a hora de os juros baixarem e a economia retomar seu crescimento. Ele apontou como fundamentais as reformas tributária e a da Previdência e garantiu que com elas será possível “corrigir distorções, combater a corrupção e incentivar o desenvolvimento, única forma de gerar os empregos”. O presidente destacou que os projetos das reformas estão sendo feitos de forma absolutamente democrática e que “o nome disso é mudança, mudança de estilo, mudança de forma de agir”.
Se a hora é de mudanças, é importante considerar os números de recente estudo desenvolvido pela empresa de consultoria Austin Assis, com base nos balanços de 300 empresas do setor de produção e 100 bancos nos últimos oito anos, ou seja, em 1994, 1998 e 2002. De acordo com esse levantamento, a política econômica só aumentou a transferência de recursos de empresas não-financeiras para bancos. A conclusão desse estudo: se o governo Lula pretende mudar os rumos da economia e dar prioridade à produção, não pode demorar para mudar o modelo que foi adotado nos oito anos do governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002).
Conforme foi divulgado em reportagem da Folha de S. Paulo a respeito dessa análise, as despesas financeiras subiram de 3,5% para 35% do faturamento das empresas durante o governo FHC. Essa verdadeira fábrica de lucros ocorreu assim: em 94, as despesas financeiras representavam 3,5% das receitas das companhias; em 98, o número subiu para 14,25; e, em 2002, atingiu 35,1%. Para se ter uma idéia dos valores envolvidos, basta citar que no ano passado as empresas transferiram para os bancos R$ 68,4 bilhões de uma receita total de R$ 194,9 bilhões.
Ainda de acordo com o mesmo estudo, houve um crescimento expressivo da rentabilidade e do lucro dos bancos durante os últimos oito anos. Em 1994, a rentabilidade (lucro líquido sobre o patrimônio) das empresas foi de 5%, caindo para 3% em 1998, e, para apenas 1% em 2002. Já a rentabilidade dos bancos foi de 10,6% em 1994, subiu para 15,7% em 1998 e, em 2002, atingiu o recorde de 24,5%.
O estudo revela que em 1994, os bancos obtiveram um lucro de R$2,5 bilhões. Em 2002, esse resultado pulou para R$ 22,8 bilhões, um salto de 812% em relação a 1994. Nesse período, a inflação foi de 101%. Já as empresas do setor produtivo saíram de um lucro de R$ 8,5 bilhões em 1994 para um prejuízo de R$ 39,7 bilhões em 2002.

Para o presidente da consultoria responsável pela pesquisa e análise, Erivelto Rodrigues, “o modelo econômico adotado pelo governo passado foi equivocado para conseguir o desenvolvimento sustentável”, sendo que o grande descompasso entre os ganhos dos bancos e o das empresas foi e é o custo dos empréstimos, os juros cobrados. “O crédito no Brasil é caro, escasso e de curtíssimo prazo, e isso inviabiliza o crescimento do País.”
Cabe ressaltar que essa atual situação não é enfrentada apenas por empresas (de grande, médio e pequeno portes), mas também por todos os cidadãos brasileiros e pela sociedade em si. Afinal, todos são reféns dos bancos e convivem com taxas de juros estabelecidas em patamares elevadíssimos no Brasil – além de todos os outros tipos de cobranças impostas pelos estabelecimentos bancários.
Dentre esses reféns estão as empresas prestadoras de serviço que têm os profissionais biomédicos entre seus proprietários, diretores ou funcionários. Toda a categoria sofre as conseqüências. Em dificuldades, as empresas não contratam, às vezes são obrigadas a demitir, não crescem, não se modernizam, muitas são levadas a interromper as atividades. Sem recursos, os profissionais não se reciclam, não evoluem, perdem empregos, enfrentam obstáculos na recolocação...
Está mesmo na hora de o presidente pôr o dedo na ferida para que os resultados comecem a aparecer. A retomada do crescimento econômico pretendida por Lula depende de fato da reforma tributária, sem a qual de nada adiantarão outros esforços. Os profissionais, as empresas e a sociedade não agüentam mais tal situação.
Por tudo isso, e retomando o tema inicial, temos de perguntar: nesse momento de mudanças anunciado pelo governo Lula, a farra dos bancos não vai acabar? Esperamos que acabe. Ficamos na expectativa, aguardando a iniciativa do presidente, de acordo, inclusive, com outro pensamento seu, divulgado também por ocasião de seu pronunciamento quando da passagem de seus primeiros três meses de governo. “Continuem confiando em seu presidente. E, o mais importante, continuem confiando no seu País”, pediu Lula. Nós, cidadãos, esperamos que essa confiança não seja em vão, como já aconteceu em relação aos presidentes anteriores..


Marco Antonio Abrahão
é presidente do CRBM – 1ª Região