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Dengue: um pacto antes do pacto

A doença é fenômeno mundial, ligado à falta de infra-estrutura.

José da Silva Guedes e Luiz Jacintho da Silva

estes dias em que se reacende a discussão de um pacto social abrangente no País, há um outro pacto, mais simples e direto, que pode e deve ser firmado: o pacto social contra a dengue.
Em 2001 os casos de dengue alcançaram no maior número até então registrados o Estado, pouco mais de 51 mil. Em 2002, São Paulo conseguiu reduzir esse número em 25%; o País, porém, sofreu a sua maior epidemia, mais de 700 mil casos. O crescimento do número de casos e a expansão da área potencial de transmissão não podem ser objeto de mera contemplação ou lamentação por parte da sociedade.
Não há registro confiável da ocorrência de dengue no Estado de São Paulo anteriormente a 1987, ainda que o seu transmissor, o Aedes aegypti, estivesse presente até o início da década de 50. De maneira semelhante, registros da ocorrência de dengue no Brasil antes de 1982 são escassos, se resumindo ao clássico relato da epidemia de 1923, em Niterói, por Antonio Pedro e a alguns relatos do século XIX sobre a ocorrência de uma doença que poderia ter sido a dengue.
A febre amarela urbana, também transmitida pelo Aedes aegypti, foi um problema em São Paulo até 1908. A presença da dengue não é um retrocesso como às vezes se divulga. A dengue tem as mesmas raízes de outros problemas do momento: violência, desemprego, tráfico de drogas e inúmeros outros, cuja solução depende não só da ação do poder público, de vontade política, mas muito mais, talvez, de mudanças da sociedade, o que implica a participação de muitos.
Em São Paulo, a divisão de trabalho e de responsabilidade entre as esferas de governo municipais, estadual e federal está claramente estabelecida, havendo um excelente entrosamento em todos os planos de atividade. Dentro do Sistema Único de Saúde, não há dificuldade de entendimento sobre os diferentes papéis.
A divisão de papéis e responsabilidades entre o poder público e a sociedade civil, no entanto, nem sempre é claramente compreendida e muito menos definida. Não há dúvida de que a saúde é um direito do cidadão e uma responsabilidade do Estado, que, pela Constituição Federal de 1988, deve prover tudo o que for necessário para a promoção e proteção da saúde e para a prevenção da doença e seu tratamento e reabilitação. A lei não prevê, no entanto, uma situação específica: o papel do cidadão nesse processo. Como a preocupação dos legisladores era maior com os deveres do Estado e os direitos do cidadão, os deveres desse último, seja como indivíduo isolado, seja como sociedade
civil organizada, ficaram para um plano secundário, como se não tivessem importância ou não fossem essenciais para alcançar o bem comum. Mas são, e muito.
Há circunstâncias em que o papel do Estado é óbvio e o do cidadão, realmente ínfimo ou inexistente. Uma pessoa que tenha uma apendicite aguda deve ter acesso rápido a um hospital para ser operado, nada mais do que isso. Não ocorre ao cidadão questionar o Estado pelo fato de ter tido apendicite, o senso comum mostra que essa é uma questão individual, a respeito da qual pouco pode ser feito. Ninguém questiona o Estado pela ocorrência de apendicite, apenas o seu tratamento. Se alguém tem dengue, o cidadão poderá reinvindicar dois direitos, o de não ter dengue e o de ser tratado da doença. Os deveres do cidadão e da sociedade organizada é que não estão explicitados.
Dengue é um fenômeno mundial, ligado ao subdesenvolvimento e à inadequada infra-estrutura urbana, principalmente no que diz respeito à qualidade da habitação. É também o resultado de outros fatores, mais ligados aos hábitos e costumes, especialmente relacionados ao respeito e à proteção ao meio ambiente. Um pacto social amplo, “o pacto”, sem dúvida incluirá esses problemas, particularmente os primeiros, dificilmente os últimos. É necessário, urgente e possível controlar a dengue antes que se possam colher os frutos de um pacto social abrangente.
O que fazer então? Qual seria esse pacto social? Por mais que o poder público faça e invista no controle da dengue, sempre estará aquém do necessário para um efetivo controle. Na última epidemia urbana de febre amarela no Brasil, em 1928 e 1929, no Rio, Clementino Fraga, o responsável pelo controle da doença então, chegou a mobilizar 10 mil homens — mas houve também uma grande participação da sociedade civil, particularmente das grandes empresas e associações de classe. Isso representou 0,6% da população da cidade, que contava então com cerca de 1,5 milhão de habitantes. Nos dias atuais, na cidade de São Paulo, esse contingente equivaleria a cerca de 64 mil pessoas.
Mesmo naqueles tempos em que mídia e comunicação de massa eram palavras desconhecidas, a Fox Filmes e a Light co-produziram um filme que foi exibido ao ar livre inúmeras vezes nos bairros e subúrbios do Rio, chegando a ser visto por aproximadamente 50 mil pessoas. Os jornais e semanários da época davam constante cobertura aos eventos, conclamando a população a colaborar.
O pacto social da época foi implícito, o Brasil hoje é muito maior e complexo, os
problemas são muitos, não só a dengue. Há necessidade, porém, de um pacto social ser firmado entre Estado e sociedade, com deveres de parte a parte, um pacto explícito.
O controle da dengue é trabalho intensivo, demanda uma quantidade de pessoas que extrapola todos os limites da atual legislação de responsabilidade social e de limitação de gastos públicos com pessoal. Não se cogita abrir brechas nessa legislação, necessária e arduamente conquistada. O trabalho adicional deve vir de diferentes setores da sociedade, particularmente do empresariado. Trata-se, em grande parte, de trabalho que não requer qualificação especial, uma oportunidade bem-vinda para o grande número de desempregados existente nos grandes centros urbanos, mas a um custo que o poder público não pode arcar isoladamente.
O pacto social para a dengue urge, deve unir o poder público e os diferentes setores da sociedade em torno de metas claramente definidas e com um tempo também previamente estabelecido. Esse pacto poderia ser nacional, mas pode ser inicialmente estadual, onde o empresariado e as associações patronais e de empregados doarão tempo e habilidades, muito menos do que simplesmente recursos, para o objetivo comum de modificar o comportamento geral com respeito a uma ameaça que, no início deste ano, já deu uma mostra do que é capaz. Importante, como em qualquer pacto bem-sucedido, é existir uma idéia clara dos meios e tempo necessários para atingir metas claramente definidas, sabendo-se que o caminho é árduo e nem sempre coroado de sucessos fáceis e imediatos.
Esse é o único caminho viável para manter afastado o fantasma de uma epidemia, cujas conseqüências são muito maiores e piores do que qualquer sacrifício que o seu controle possa exigir. Governos podem catalisar mudanças sociais, mas essas somente se concretizam mediante movimentos profundos e conscientes da sociedade.


José da Silva Guedes
é secretário
de Estado da Saúde de São Paulo e professor titular do Departamento de Medicina Social, Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.

Luiz Jacintho da Silva é
superintendente de Controle de
Endemias - Sucen, Secretaria Estadual da Saúde de São Paulo e professor titular do Departamento de Clínica Médica, Faculdade de Ciências Médicas, Unicamp.